Dia do Índio: entre descolonização, memória e identidade

18/04/2021

De acordo com o pesquisador indígena Daniel Munduruku, doutor em Educação pela Universidade de São Paulo e pós-doutor em Linguística pela Universidade Federal de São Carlos, a palavra “índio” está relacionada com os estereótipos sociais criados no campo da História. Trata-se de uma conotação preconceituosa que caminha ao lado de generalizações criadas a partir da perspectiva branca, eurocêntrica, tradicional, burguesa e dominante. Termos como “selvagem” e “não-civilizado”, por exemplo, dividiram as atenções com as palavras “índio” e “indígena”, em um período de grandes extermínios entre a colonização, em meados do século XV e a imigração europeia no final do século XIX no Brasil.

Para Munduruku (BBC, 2019, p.1) “a palavra índio perdeu o seu sentido. É uma palavra que só desqualifica, remonta a preconceitos. É uma palavra genérica. Esse generalismo esconde toda a diversidade, riqueza, humanidade dos povos indígenas”. Nessa perspectiva, remonta-se a duas ideias principais de interpretação coletiva: a romântica/folclórica e a ideologizada. A primeira está ligada com o Dia do Índio, “comemorado” no dia 19 de abril: “aquela figura do desenho animado, com duas pinturas no rosto e uma pena na cabeça, que mora em uma oca em forma de triângulo. Há a percepção de que essa é uma figura que precisamos preservar, um ser do passado” (MUNDURUKU apud BBC, 2019, p.1). E a segunda está correlacionada “a preguiça, selvageria, atraso tecnológico, a uma visão de que o índio tem muita terra e não sabe o que fazer com ela. A ideia de que o índio acabou virando um empecilho para o desenvolvimento brasileiro” (MUNDURUKU apud BBC, 2019, p.1).

Segundo o escritor, que pertence ao povo indígena Munduruku (situado no Pará, Amazonas e Mato Grosso), a palavra “indígena” diz mais sobre o seu povo: “índio gera uma imagem distorcida. Já indígena quer dizer originário, aquele que está ali antes dos outros” (MUNDURUKU apud BBC, 2019, p.1). Os povos originários estão relacionados ao pertencimento de uma ancestralidade e suas identidades culturais devem ser valorizadas em suas especificidades. As generalizações foram um dos principais mecanismos de silenciamento das particularidades desses povos.

Segundo Ailton Krenak (2015, p.328), líder indígena, ambientalista, professor, poeta e pesquisador brasileiro, “nenhuma das nossas tradições de povos indígenas deixou registros escritos sobre a sua história, sua geografia”, apenas “da memória que foi sendo passada de geração em geração e chegou a alguns escritos, mas muito raros”. Resultado de um processo de alargamento de “cotovelos, bem ao gosto colonial”, “[…] empurrando os vizinhos mais fracos para o lado” (KRENAK, 2015, p.321). Classificações generalizadas, criadas a partir da dominação e exploração dos povos colonizados, refletem diretamente as relações raciais e étnicas. Noções de controle, travestidas de ações político-organizacionais, que resultam na promoção de desigualdades. O colonizador que controla, manipula, domina e detém o poder para tal; o colonizado que é escravizado, que fornece mão de obra e recursos, que obedece.

Segundo Maria Amelia Souza Reis (2016), a descolonização surge por intermédio do apelo social de debater, problematizar e desconstruir verdades históricas, generalizações e estereótipos normalizados durante anos. Cita a importância de dar visibilidade, voz e vez às minorias e povos que sofreram com o processo de silenciamento, difundidos tradicionalmente por espaços elitizados. Além disso, propõe, a partir da diversidade cultural, a valorização do conhecimento popular e de sua acessibilidade por todos. Práticas como possibilitar a afirmação e o reconhecimento das diferenças e de exercitar a liberdade e a emancipação são competências estruturantes dessa lógica.

Ainda sobre o dia 19 de abril, Daniel Munduruku evidencia que “quando a gente comemora o Dia do Índio, estamos comemorando uma ficção, uma ideia folclórica e preconceituosa. […] Se nós continuamos tratando isso como ficção, vamos continuar deseducando nossas crianças” (MUNDURUKU apud BBC, 2019, p.1). Para ele, a data deveria se chamar “Dia da Diversidade Indígena”: “as pessoas acham que é só uma questão de ser politicamente correto. Mas, para quem lida com palavra, sabe a força que a palavra tem. Tanto que apelido tem uma força destruidora” (MUNDURUKU apud BBC, 2019, p.1).

Nessa lógica, essas práticas engessadas precisam ser desconstruídas e não cabem mais na contemporaneidade. Escritores indígenas defendem que esta data precisa deixar de ser “comemorativa” para se tornar “de consciência”: “é uma data para a gente refletir. Deve gerar nas pessoas um desejo de conhecer, de entrar em contato com essa diversidade dos povos indígenas” (MUNDURUKU apud BBC, 2019, p.1).
No que se refere aos Geoparques Mundiais da UNESCO a existência de povos indígenas dentro de um território Geoparque é extremamente relevante, tanto que essa é uma das 10 áreas de foco deste. Envolver essas comunidades com a gestão do território é uma maneira de celebrar e preservar o conhecimento desses povos e o vínculo dessas comunidades com a terra.

No extremo sul catarinense, existem registros da manifestação dos povos Xokleng e Guarani, quase todos exterminados e/ou expulsos da região, principalmente, com o advento da imigração europeia. Inúmeros objetos oriundos de povos originários, como pontas de lança, machadinhas e outros materiais líticos, foram encontrados em Morro Grande, Jacinto Machado, Timbé do Sul, entre outros, e compõem o acervo de pequenos museus locais, além de serem amplamente pesquisados pelo LAPIS – Laboratório de Arqueologia Pedro Ignácio Schmitiz da Universidade do Extremo Sul Catarinense em Criciúma.

Já no Rio Grande do Sul, em Torres, há cerca de 200 indígenas Mbya Guarani que vivem na comunidade Nhu Porã, o que significa 0,25% dos habitantes do Geoparque Aspirante UNESCO Caminhos dos Cânions do Sul. Seus costumes e crenças ainda são preservados em suas especificidades, em que se destacam atividades em torno do artesanato, saberes orais e celebrações religiosas. Ainda em Torres, os artesanatos feitos pelos Mbya Guarani estão à venda na Casa da Terra, uma loja que fica bem no centro da cidade e muito visitada por turistas. O valor arrecadado é destinado à Aldeia. Os produtos podem ser adquiridos também diretamente na Casa do Artesanato localizada na entrada da Aldeia.

Em todo o território dos sete municípios que compõem o Cânions do Sul, atividades de conscientização em torno dos povos originários e seus saberes, são desenvolvidos no eixo da educação e no grupo de trabalho da cultura. Nos últimos quatro anos, foram promovidas importantes formações de professores em torno da temática, partindo de um viés descolonizador e não-romantizado, tendo como fio condutor, a história não oficial e os saberes culturais desses povos.
Não esconder o passado e problematizar o presente são alternativas de conscientização para um futuro com cada vez menos silenciamentos. Dar voz a quem tem o que falar, é primordial.

AUTORES:

Fabiano Souza da Silva | Graduado em Licenciatura Plena em História pela Universidade de Caxias do Sul (UCS), professor na Prefeitura Municipal de Cambará do Sul, Coordenador de Educação do Geoparque Aspirante UNESCO Caminhos dos Cânions do Sul

Mikael Miziescki | Mestre em Patrimônio Cultural e Sociedade (UNIVILLE), professor de Artes da Prefeitura Municipal de Morro Grande e Coordenador do Grupo de Trabalho da Cultura do Geoparque Aspirante UNESCO Caminhos dos Cânions do Sul.

Referências:

BBC (Brasil). Dia do Índio é data ‘folclórica e preconceituosa’, diz escritor indígena Daniel Munduruku. 2019. Entrevista. Disponível em: https://g1.globo.com/educacao/noticia/2019/04/19/dia-do-indio-e-data-folclorica-e-preconceituosa-diz-escritor-indigena-daniel-munduruku.ghtml. Acesso em: 05 abr. 2021.

KRENAK, Ailton. Paisagens, territórios e pressão colonial. Espaço Ameríndio, Porto Alegre, v. 9, n. 3, p. 327- 343, jul./dez. 2015.

REIS, M. A. S. (Des)colonialidade, diálogo intercultural e etnoreconhecimento nos museus: desafios para a educação e a museologia contemporâneas. XXIV Encontro do ICOFOMLAM. Musealidade e Patrimônio na teoria museológica latino-americana e do Caribe. Ouro Preto, p.799-844, 2016.

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